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Veganismo: adotar ou não esse estilo de vida?

Hoje, há um estigma carregado pelo veganismo, no qual ele só seria possível para pessoas com alto padrão de vida. Outro estudo, que vai de encontro a essa ideia é revelado pela pesquisa conduzida pelo Ibope Inteligência, realizada em abril de 2018. Sob encomenda da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB): 60% dos brasileiros comprariam produtos veganos se custassem o mesmo que os que contêm componentes de origem animal. Isso é, os altos preços dos produtos estariam barrando a expansão da prática. No entanto, adeptos da postura e especialista garantem que esse entendimento é equivocado.

 

Carlos Alberto Oliveira, 35, vegano há 20 anos, atribui a “culpa” aos produtos veganos industrializados. “Você chega ao supermercado e vê uma caixinha de leite vegano a R$ 12. Rapidamente pensa que tem que ser rico para comprar essas coisas. Mas não é pressuposto do veganismo consumir determinados tipos de produtos, muito menos frequentar certos restaurantes”, relata. Ele, que aderiu à causa ainda na adolescência sob influência dos movimentos punk rock e anarquista, ressalta que naquele tempo sequer existiam produtos veganos nas gôndolas dos supermercados. “Há 20 anos, o veganismo não era tão associado a questões de consumo como tem sido nos dias de hoje. Na época, pra me virar, eu tinha que comer as comidas do dia a dia, não tinha essa de comprar biscoito, sorvete, ‘carne’ vegana. Foi um processo acessível. Inclusive um argumento que me convenceu e ainda é válido é que alimentos de origem animal são mais caros que os de origem vegetal”, diz.

 

A pesquisa do Ibope Inteligência não trata especificamente de veganos, mas demonstra que 14% dos brasileiro, cerca de 30 milhões de pessoas se auto declaram vegetarianos. Esse número representa um aumento de 75% em relação à mesma pesquisa realizada em 2012, quando o percentual era de 8%. Levando em conta que parte dessas pessoas já devem não consumir produtos derivados de animais, não parece ser falta de dinheiro o que impede a fração que ainda consome de parar de fazê-lo. Criado nos bairros Pompeia e Boa Vista, na região Leste, Carlão, como é conhecido, é de origem pobre, mas reconhece que melhorou de vida ao longo desse tempo. Os seus hábitos alimentares mudaram pouco. “É bem parecida à maneira como era. Hoje, moro com minha esposa, que também é vegana, e nossa alimentação é constituída basicamente de vegetais frescos. Às vezes, conseguimos consumir até orgânicos, de agricultura familiar. São coisas que custam pouco e rendem muito”, informa.

 

O relações públicas Mateus Pereira Rodrigues, 38, também é aderiu esse estilo de vida e assegura que consegue gastar pouco. Suas despesas com alimentação são basicamente de hortifrúti e ficam em torno de R$ 170,00 por mês. “Em geral, eu mesmo preparo minhas refeições. Mas há, inclusive, restaurantes bem baratos, como Pé de Couve, no centro, onde eu almoço às vezes, por ser perto do meu trabalho. O prato vegano custa R$ 13 com buffet liberado ou R$ 29 o quilo”, conta.

 

A visão de que o veganismo é associado a gastos elevados por conta dos produtos industrializados é corroborada pela nutricionista funcional Silvana Portugal. Para ela é fundamental a informação mesmo para se adotar esse estilo de vida. “A pessoa deve saber o que precisa comer, equilibrar carboidratos, gorduras e as proteínas corretas que tem que ingerir para ter o mesmo valor proteico da dieta onívora”, pondera, explicando que de 10% a 15% da alimentação diária deve ser composta por proteína de alto valor biológico, ou seja, que tenha todos os 23 aminoácidos. “Aliás, não é raro que não veganos ingiram proteína além da conta, porque, às vezes, comem carne, queijo, couve, leite e também feijão com arroz. Isso pode causar problemas como o aumento do colesterol e do ácido úrico”, completa.

A nutricionista observa que veganismo não necessariamente implica uma alimentação balanceada, mas destaca que, quando isso acontece, evita problemas como diabetes, pressão e colesterol altos, esteatose hepática, além de ajudar o pâncreas e o fígado a funcionar melhor.

 

A fotógrafa Nathália Santos, 23, foi apresentada ao veganismo popular por amigos que também moram em áreas periféricas. “É basicamente comer o que está barato na feira”, explica. “É possível se alimentar bem, sem faltar nutrientes, vitaminas, sais minerais, só com isso. Hoje mesmo no meu almoço tinha arroz, feijão, abobrinha, tomate e milho. Ainda fiz uma limonada para ajudar na absorção dos nutrientes”. Se por um lado é possível gastar pouco dinheiro, por outro é inegável que é preciso tempo para cuidar da alimentação da forma mais adequada. Nathália, porém, diz que não é tanto assim. “É questão de aprender a se organizar. Além disso, preparar pratos sem carne geralmente é bem mais rápido”, afirma.

 

Uma barreira maior para a difusão do veganismo entre as classes mais baixas seria, a ideia de que comer carne é sinônimo de status. “Ainda existe essa coisa cultural de ‘poxa, melhorei de vida, vou comprar carne boa’. É uma coisa que ainda ocupa o imaginário das pessoas”, conclui. Internet é espaço de troca e difusão da causa vegana.

 

Há dez anos sem comer carne, Caroline Soares, 28, é vegana há apenas quatro. Moradora da periferia de Guarulhos – SP, ela mesma reconhece que, por muito tempo, entendia veganos como metidos e achava que manter esse estilo de vida era caro. “O que eu acompanhava nas redes sociais era algo a que eu não tinha como ter acesso: receitas difíceis, produtos de marcas que não existiam no Brasil”, lembra. Mesmo assim, um dia ela resolveu tentar. E criou no seu Facebook um álbum chamado “Vivendo de Alface”, em que sempre postava as coisas que comia. E percebeu que aos poucos as pessoas estavam se engajando. Foi devido a isso que decidiu criar o grupo Veganos Pobres Brasil, com o intuito de trocar receitas. “Já havia outros com proposta parecida, mas não abrangiam minha realidade de periférica. Decidi fazer isso para juntar pessoas como eu”, conta. Criado há três anos, o grupo já conta com quase 90 mil membros e foi o trampolim para que Caroline criasse, o perfil de Instagram Logo Eu, Vegana Pobre, hoje como sua ferramenta de trabalho, com 22 mil seguidores. “Eu dou receitas, mostro o meu dia a dia, indico marcas de produtos, ensino a mandar e-mail para as marcas e também tem humor. Recebo muito retorno de gente se dizendo chocada, falando que achava que não era possível ser vegano e gastar pouco antes de me conhecer”, afirma.

 

Na mesma pegada, Leonardo e Eduardo Santos, 22, criaram o perfil Vegano da Periferia que traz referências para ajudar a popularizar a causa. “O começo, pra nós, foi árduo. Procurávamos receitas e só encontrávamos coisas difíceis para a nossa realidade, uma galera muito vaidosa. Nossa ideia é agregar para popularizar. Mostrar que é simples e barato”, explica Leonardo, que mora na periferia de Campinas, em São Paulo, e trabalha como cozinheiro numa hamburgueria vegana. Ele ressalta que veganismo não é só sobre alimentação, “mas é a coisa que mais pega, porque as pessoas comem o tempo todo”. “Por isso, mostramos o prato, mas também trazemos reflexões sobre aquilo no qual acreditamos”, pondera. O Bar aposta na simplicidade e foi fundado com o propósito de ser libertário em diversos âmbitos, o Olÿmpia Coop Bar, no edifício Maletta, centro da capital, tem um cardápio inteiramente vegano. “É a iniciativa de um grupo de amigos que estavam cansados de ser explorados na noite de BH, de sofrer com machismo, racismo, homofobia, além de muitas vezes não serem pagos. Nossa proposta é ser justamente um lugar livre de opressão, tanto humana quanto animal. Por isso defendemos o veganismo”, explica Libernina, gestora do estabelecimento.

O estereótipo de lugar hostil a quem não tem dinheiro, não se encaixa aqui. Com opções de petiscos, porções, salgados e sanduíches, além de sobremesas, os preços vão de R$ 6 até, no máximo, R$ 25 (o hambúrguer mais caro). “Há algum tempo, passamos por uma crise de identidade e quase fechamos. Nessa época, consideramos gourmetizar, aumentar os preços, mudar ingredientes. Mas entrou uma questão: nosso público sempre foi mais popular, será que queremos realmente ter clientes com poder aquisitivo maior, virar um lugar chique, ou manter nosso ideal de ser acessível? Preferimos manter a linha ‘botecão’ com pegada vegana”, relata. O bar, no entanto, não é frequentado só por pessoas veganas, pelo contrário. Libernina acredita que a maior parte da clientela seja atraída pelos preços, e não necessariamente pela proposta. “Ninguém precisa sentar e virar vegano pra sempre. Pode comer sem compromisso. Nós só propomos uma reflexão, repensar o consumo, como cada coisa é devidamente feita, quantas pessoas e animais são explorados por essas respectivas indústrias.

 

Veganismo é pensar e questionar, o mundo, o meio ambiente, a sociedade. Não é só uma alimentação. É um estilo de vida.

 

 

Fonte: O tempo

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